Já faz algum tempo que o grupo de mergulhadores formado por mim (Guilherme Aguiar) e os mergulhadores Lucio Bravin, Eduardo Macedo e José Mario Ventura planejava dar início a um projeto de exploração e mapeamento de cavernas submersas no Brasil.

Depois de visitarmos o local diversas vezes, escolhemos iniciar o trabalho de exploração e mapeamento por uma dolina localizada no centro-oeste brasileiro, conhecida por Buraco do Inferno. Embora o local já tivesse sido explorado por outros mergulhadores, as informações disponíveis sobre a dolina levavam a crer que a caverna ainda possuía muito potencial de exploração, entre túneis, galerias labirínticas e salões sifonados pouco habitados, mas com a presença de pequenos peixes, tartarugas e patos (estes vistos em nossa última expedição. Como eles chegaram lá? Mais um dos mistérios do Buraco).

Em agosto de 2016, nosso projeto finalmente saiu do papel e a descrição dessa experiência incrível e cheia de descobertas é o que você poderá acompanhar em primeira mão neste relato.

 

As primeiras explorações do Buraco do Inferno

 O primeiro mergulho de exploração no Buraco do Inferno foi realizado há cerca de 30 anos, mais precisamente em 23 de março de 1987, pelo mergulhador e biólogo Maurício Carvalho e seu dupla Carlos Eduardo (Didu). Na época, eles e outros mergulhadores parceiros formavam o GREC (Grupo de Resgate e Exploração de Cavernas) e realizaram cerca de 50 mergulhos no local durante um projeto de ecologia e identificação de peixes, pela UnB. “Aqueles definitivamente eram outros tempos. Chegamos a uns 70 metros de profundidade e por isso já nos achávamos os master f***** scuba association”, revela Maurício, entre risos.

De fato, eram outros tempos mesmo, e o grupo conseguiu realizar um grande feito se pensarmos em todas as limitações que tinham de superar, como a capacidade e autonomia dos equipamentos de mergulho disponíveis nos anos 80. “Eu estava usando um cilindro simples de 80 pés cúbicos e a iluminação, se é que podemos chamar de iluminação, era feita por 2 lanternas da Cobra Sub e uma Mako”, afirma Maurício, em tom descontraído. “Meu dupla usava a lanterna Laser da Eveready já alagada para não implodir com a profundidade e ela chegava a formar um vinco no plástico quando atingíamos 50 metros de profundidade. Incrível, mas ela nunca parou de funcionar! Tenho arrepios só de lembrar”, conta o biólogo, ainda em tom de descontração. As informações sobre esse primeiro momento de exploração do Buraco do Inferno estão registradas em uma matéria chamada “Mergulhando nos Segredos do Buraco do Inferno”, de junho de 1991 (Revista Geográfica Universal, disponível no site Naufrágios do Brasil). Na época, o GREC desvendou alguns segredos do local. Porém, mal sabiam eles que muitos dos segredos só viriam à tona 30 anos depois! E mal sabíamos nós que teríamos o privilégio de testemunhar isso!

 

Não existe almoço grátis! O pedágio para o Buraco do Inferno

Já diziam os mergulhadores pioneiros do Buraco do Inferno que chegar lá não é missão “para os fracos”. Vamos chamar isso de um pedágio, nada barato por sinal, pois a realidade é que o mergulho no local começa muito antes do contato com qualquer gota d’água. Não bastasse a caverna estar localizada em uma área isolada no meio de imensas plantações de soja e de pastagem para gado, acessar o lago de águas incrivelmente azuis exige antes passar por uma descida vertical de aproximadamente 40 metros. E não para por aí, pois em seguida temos de encarar outros 50 metros de ladeira para completar a descida, ainda presos às cordas de segurança. Isso, levando todas as nossas “toneladas” de equipamentos. Muita gente já pararia por aí? Talvez. Mas para nós, a aventura só estava começando.

Gastamos pelo menos um dia e meio de expedição, sem mergulho, só na missão de abrir caminho na mata fechada e inclinada, e de montar a estrutura de cordas e tirolesa, para somente então descer todos os equipamentos por elas. Além disso, também nos ocupamos com a preparação de todo o material a ser usado na exploração e coleta de dados: carretilhas exploratórias, setas, cookies, marcadores das estações de coleta de dados, iluminação, planejamento do mergulho, planejamento de emergência, hidratação… É uma missão que realmente exige técnica, força, preparo físico e, principalmente, muita disposição, para que se chegue até a água.

Superada essa etapa, chegamos à parte mais fantástica da expedição: o mergulho nas águas translúcidas e azuis que afloraram quando da formação dessa maravilhosa dolina. Ao mesmo tempo que são águas maravilhosas, exigem também muita técnica, experiência e habilidade do mergulhador.  Somando a profundidade às águas tão claras, temos um atrativo perigoso para mergulhadores menos experientes.  O sujeito sem tanta experiência corre o risco de ir afundando sem sequer perceber enquanto aprecia a beleza hipnotizante do Buraco do Inferno. Infelizmente, dois Open Water Divers que se arriscaram a mergulhar no local sem treinamento adequado morreram lá há alguns anos.

 

Mergulhando nos Segredos do Buraco do Inferno – A Nova Era

Os relatos de mergulhadores que já tinham ido ao Buraco do Inferno, assim como os cabeamentos realizados pelos primeiros exploradores, nos levaram a crer que havia muito pouco conhecimento sobre a caverna em relação ao que ela teria a apresentar! O conduto principal e a área de Cavern são muito amplos. A profundidade de início do conduto principal, por si só, já seria um grande limitador. A caverna começa a fechar o teto a aproximadamente 40 metros de profundidade. Por isso, é de se louvar que com os recursos que se tinham à época das primeiras explorações – principalmente pensando em disponibilidade de gases especiais, analisadores, iluminação e outros equipamentos – os mergulhadores pioneiros tenham chegado aonde chegaram. Com os equipamentos que temos hoje, não há dúvidas de que teriam ido ainda mais longe.

Nossa primeira expedição dentro do projeto de mapeamento no local – que foi realizada em agosto de 2016 por mim e pelos mergulhadores José Mario Ventura e Eduardo Macedo – tinha o intuito de explorar e, principalmente, mapear a área até então explorada. Já nessa oportunidade, exploramos um conduto novo, que encontramos em uma de nossas expedições anteriores. A entrada desse conduto é um pouco mais rasa, a cerca de 18 metros de profundidade.

O conduto tem um espaço mais restrito e conseguimos visualizar todas as suas paredes. Foi uma excelente surpresa! Apesar da entrada relativamente rasa, esse conduto não é diferente de todo o resto da caverna. Sua profundidade chega aos 60 metros, com aproximadamente 90 metros de penetração. Ainda não demos nomes aos condutos, mas a princípio chamamos este de conduto “B”.

No retorno pelo cabo que deixamos, nos deparamos com uma surpresa ainda maior: um outro conduto derivando daquele que havíamos acabado de explorar, um jump! Nossa reação não poderia ser outra que não a: “Me dá uma carretilha e vamos nessa!”.

 

A exploração do jump do conduto “B”

Na expectativa da descoberta da sequência desse conduto, nos deparamos com curvas indo e vindo, muita adrenalina e, de repente, chegamos a um mega salão de proporções ainda não mensuradas! O salão é tão grande que mesmo com nossas lanternas primárias de 3500 lumens não conseguimos enxergar todas as suas paredes. Nessa primeira

 

A incrível fratura

Ainda nessa primeira expedição, fomos também explorar uma grande fratura que existe ao final do conduto principal (conduto “A”), que chamamos de “AF”. Ela tem início após aproximadamente 150 metros de penetração a partir da área de águas abertas, atingindo uma profundidade de 85 metros.

As dimensões da fratura nos exigem extrema atenção durante a descida. Você consegue imaginar uma rachadura de aproximadamente 40 metros de comprimento, mas com apenas 3 metros de largura?! Pois é, não há outra forma de descer por ela a não ser estando perfeitamente no trim e sem movimentos bruscos. Qualquer toque nas paredes e a nossa visibilidade poderia sair de “até onde seu olho consegue enxergar” para “zero”! Os sedimentos sobre as paredes laterais do conduto são semelhantes a um talco negro! Qualquer agitação pode levar a um grave estopim de um acidente, principalmente na profundidade em que estávamos.

Nessa exploração do conduto “AF”, chegamos a 147 metros de profundidade, em forma de abismo! E o mais incrível é que não vimos sequer um sinal do fundo do conduto! Esse foi um mergulho de muita superação de limites, não só em profundidade, mas também em termos de tempo de mergulho. Atingimos a marca dos 522 minutos de submersão, eu mergulhando com meu 02ptima (Dive Rite) e José Maio Ventura mergulhando com seu Liberty (Dive Soft)!

 

A cada nova expedição, uma nova descoberta e um motivo para retornar

A coisa mais impressionante no Buraco do Inferno é que a cada nova expedição novos condutos são encontrados e os condutos já conhecidos apresentam ainda mais novidades! Não foi diferente em nossa última expedição, no mês de abril deste ano (2017), realizada por mim, Lucio Bravin e José Mario Ventura.

Nossa intenção era continuar a exploração e a coleta de dados para o mapeamento. No primeiro dia seguimos para o jump do conduto “B” até 80 metros de profundidade. A partir desse ponto, o conduto apresentou uma restrição. A exploração de cavernas não é como nas fotos de mergulho em cavernas que vemos por aí. A realidade é que muito sedimento é levantado enquanto vamos passando o cabo guia e fazendo suas amarrações, afinal, são lugares nunca tocados antes. É possível seguir a exploração, mas deixamos a descoberta para uma próxima oportunidade.

No dia seguinte focamos ao conduto “AF” e chegamos a uma profundidade de 177 metros. Neste percurso, aos 160 metros de profundidade, olhamos para baixo e vimos a abertura de um grande salão. Dessa vez, achamos que chegaríamos ao fundo. Mas, analisando bem, formou-se um grande platô, que tem à sua esquerda a sequência da descida! O objetivo de chegar até o fundo, é claro, não foi alcançado! E o mais incrível é que ao longo da descida, encontramos outra ramificação do conduto, certamente jamais explorada!

Tivemos de finalizar a expedição, mesmo em meio àquela empolgação e vontade de seguir, pensando: “Quantos segredos mais o Buraco do Inferno ainda há de nos revelar?”. Voltamos para casa com aquele gostinho de quero mais! Com o gostinho de que estamos no caminho certo e que temos muito trabalho ainda a fazer para mapearmos esse mundo de condutos e ramificações que o Buraco do Inferno já mostrou ser. É lindo! É desafiador! É simplesmente fantástico!!!

Não vemos a hora de retornar, e a nossa próxima expedição já tem dia e hora marcada para acontecer. Voltaremos em junho, dessa vez com a missão de conseguir dados suficientes para criar uma primeira versão do mapa do Buraco do Inferno. O que vai acontecer de fato? Não sabemos. O Buraco do Inferno não para de nos surpreender. Mas prometemos voltar aqui para contar para vocês, novamente, em primeira mão!

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Por Guilherme Aguiar, do Hell’s Hole Exploration Project (H2ep)

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